Izabella Pavesi

Poesias iluminadas/ Versos / Contos / Crônicas / E-books e Fotografias

Textos

       No saguão do hotel



        Estou no hall de um pequeno hotel perto do aeroporto. Tem uns homens lindos hospedados e poucas senhoras. Uns táxis esperam lá fora. Umas pessoas chegaram do aeroporto com eles, mas eu vim a pé... Será que não sou normal? Bom, isso se aprende vivendo... A caminhar... A carregar as malas sozinha, de cá e de lá... E a economizar!
        Folheio uma revista prá disfarçar, enquanto espero a hora de ir pro aeroporto. Está cheio de telões aqui em todas as salas, vê-se diversos programas... No restaurante todos vêem o esporte na TV... Aqui o Patrola exibe coisas diversas. Eu fui presenteada, ontem à noite, com um filme fantástico no canal de cinemas: “O som do coração”. É um dos filmes mais lindos que já assisti, tem silêncios, poucos diálogos e música, muita música de ótima qualidade. Quanta doçura e sensibilidade! Merecem aplausos: o autor, os atores e, sobretudo, o diretor que fez esta incrível produção. (uma mulher senta perto de mim com a filha que me olha docemente... esta tem uns 7 aninhos e é linda...)
Um casal se beija ali na frente do atendente. Eles acabaram de chegar... estão cheios de fogo, vieram passar o final de semana aqui... longe de olhares censuradores... é... quem pode, pode! Quem me dera!... voltar aos meus trinta anos e fazer tudo que não fiz!
        - Urrrarrraaaaa!!!... gritam na televisão. Estão mostrando umas lutas... E o povo delirante e turbinado cheio de adrenalina grita... É um tal de “MMA” que está acontecendo, assim me parece... artes marciais em Porto Alegre. – urrraaaarrraaaa!!! Continuam gritando e lançando punhos ao ar, numa visível demonstração que o homem das cavernas ainda está solto por aí.
        Continuo com meus olhares perspicazes. Não que o seu olhar seja menos (meu caro leitor), mas, uma mulher como eu tem olhos de águia. Mais gente chega. Uma senhora de cabelos muito brancos com uma bolsa enorme branca entra com um senhor mais jovem e a esposa também mocinha. (Continuam lutando na telona de plasma a minha frente). Não tenho uma telona assim em casa, mas não tem importância. Descem mais hóspedes pelo elevador... um senhor de bengala, uma senhora de preto... outra de vestido florido e uma criança. Bom, estamos na primavera e a moda agora vem cheia de flores coloridas.
        Faço de conta que pesquiso num grande magazine qualquer coisa... Até que tem temas interessantes: obras feitas com nanquim e aquarelas da ABRA (Academia Brasileira de Artes), muito legal. Uma mulher, que há pouco saiu, volta com uma super mala preta, daquelas que me recuso a comprar, pois são demasiado pras minhas parcas energias. Mais gente se encontra aqui no hall. Mais uma moça de vestido colorido leve, parece jérsei, com uma manga só... bem estilosa. As mulheres daqui são bem vestidas, aliás, diga-me: tem hotel bom que não tenha mulheres elegantes e bonitas!?
        Paro uns instantes.
        Fico um pouco em contemplação. Tem uns vasos com pequenas palmeiras verdes lindinhas na sala ao lado. Ali, onde ontem à noite meu ex-amor veio me cumprimentar. Trouxe-me os papéis da nossa separação. Sem lamúrias. Nem culpados. Apenas nos divorciamos por incompatibilidade de gênios. Um mais genioso que outro. Foi melhor assim. Somos amigos.
        Uns três casais alegres conversam rumorosos e animados... E também tomam cerveja alguns deles, e outros, café com petiscos. São doze e vinte. Tem um solzão forte lá fora e faz uns 28 graus.
Liguei o celular. Muitas vezes o desligo, pois não quero ser incomodada. Hoje me sinto super bem... afinal, depois de um dia inteiro de molho no quarto é preciso animar-se... A vida continua!... Um senhor quarentão entra com duas grandes malas lacradas com papel filme azul marinho... Ele deve ter vindo de muito longe. Estamos num tempo onde cada um cuida de si, apenas de si mesmo; às vezes, sequer olha “quem” está ao seu lado, cada qual absorto no seu mundo e dividido numa incomunicabilidade jamais vista. Todos, ricos e pobres, teclam um sem fim de números nuns quadradinhos de metal cujas telinhas alcançam um ser do outro lado. É a modernidade.
Uma menininha de macacão rosa e azul joga cartas na mesa do lado de lá do saguão. Não vejo que cartas são, mas ela as dispõe uma a uma, balbucia qualquer coisa e se entretém. Umas senhoras idosas aparecem na TV, mostrando as suas tardes de leitura e entretenimento, formando um clube interessado em histórias e poesias...
        A mulher e a criança ao meu lado levantam e saem... As poltronas agora descansam vazias. (Que legal!...um momento cultural na televisão!... – digo a mim mesma. Histórias curtas são encenadas e lidas... ótimo!... nem tudo está perdido).
Os três casais ali no bar ao lado continuam bebendo e comendo e jogando conversa fora.
        - Pequena alma terna flutua! – na telona, vindo lá de Bento Gonçalves poesia e cultura, um homem toma chimarrão e em prosa conta suas peripécias... as vividas e as sonhadas. O hall esvaziou. É hora do descanso de sábado à tarde para muitos. Só dois atendentes, um rapaz e uma moça permanecem prontos e solícitos atrás do balcão diante do laptop da recepção. Agora um escultor aparece procurando pedras do alto de um morro pedregoso... e depois ele as lapida em sua oficina. Ele, João Bez Batti, conta detalhes de seu trabalho, de seu garimpo por preciosidades em meio à bruta matéria do chão. E faz arte com requinte. (Dou uma olhada lá fora).
O homem continua sobre as pedras catando algo especial e se debruçando sobre a paisagem verde lá embaixo. Uma carranca preta de pedra lisa é exibida numa sala de exposições em meio a tantas outras e à espectadores curiosos. Gente vem e vai de todas as maneiras, na telona. A rouca voz do escultor ecoa suas explicações e seus agradecimentos pelos ares primaveris.
        Um rapaz do meu lado recém-chegado com sua namorada esparramou-se no assento erguendo a perna direita na cara da garota... ela repele com uma careta aquele tênis enorme envelhecido, mas ele não “tá nem aí”. Olho-o de ponta a ponta indagando-me como pode um jovem, nem tão novo, bonito e rico fazer coisa assim?!... Aí eu voltei a folhear um pouco a revista chique e disfarcei. Na sua vontade de me afrontar como se assim pudesse afrontar o sistema que o devora” o rapaz me deu uma encarada quando me ergui, larguei a revista no balcão e fui me sentar no bar-café. Deve, certamente, não suportar mulheres maduras, independentes, alinhadas e educadas. Só pode ser!
        - “Que qui é?”...- diz o rapaz em voz azeda meio entre dentes, olhando-me de soslaio. (Finjo que não é comigo).
        Recolho a mala e meu olhar pertinaz. Despeço-me dos atendentes com um sorriso faceiro, e me dirijo ao aeroporto.


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Com este texto fui agraciada com " MENÇÃO HONROSA"  no Concurso de Poesias e Crônicas da UBE/Canoas em 06.03.2012.

                                                                                Izabella Pavesi
Izabella Pavesi
Enviado por Izabella Pavesi em 20/03/2012
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