Izabella Pavesi

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Textos


Recordações da grande Viagem

        1936. Beppe tomou Ernesta pelo braço, e com cuidado, a levou até a varanda.
        - Pra ti, minha amada! – Ele mostrou a espreguiçadeira de troncos de canela que tinha feito para a esposa se recostar e apreciar o correr das águas do rio ouvindo o barulhinho das quedas de Porto Franco.
        Ela se sentou agradecida e sorriu levemente.
        Vendo Aninha e José chegarem, Beppe deu a volta atrás da casa e pegou-lhes as mãozinhas miúdas.
        - Benção, Nonní! - E foram rumo ao galinheiro.
Beppe jogou milho para a nova ninhada, toda amarela e linda, que nascera uns dias antes. Os netinhos se divertiram com os pintinhos. Depois, desceram pelo quintal até o rio; foram brincar com pedrinhas; jogavam-nas lá longe, no meio d’água e apreciavam o refluxo nas águas. Ernesta os olhava contente. Sentiu-se bem, com os ares primaveris de novembro.
        Beppe arrumou os suspensórios, deu-lhe um beijo na testa e tomou sua mão. A sinfonia dos pássaros aumentava o olhar de cumplicidade que ambos trocavam com a sabedoria dos idosos. Tinham tido uma vida muito difícil.
        - Sabe, Beppe, quando viemos para cá – em 1876 - na grande travessia, eu quis morrer. Fora tão dramática toda aquela tormenta que só quem passou por aquilo consegue imaginar. Éramos imigrantes cruzando os mares pela primeira vez e juramos jamais cairmos em outra aventura daquelas. Que coisa cruel!... O Capitão do Navio Colombia queria todas as nossas roupas! Por conta das ondas furiosas, lúgubres e aterradoras, o casco do navio começou a abrir. Uma rachadura na parte inferior da nave fez entrar jorros d’água em frações de segundos. Íamos afundar... quanto pavor! Olhei meu baú com todo enxoval novinho de linho bordado e arregalei os olhos quando o capitão pulou da escada abaixo e me tirou aquele tesouro. Gritei... “Não!... meu enxoval não!”... Foi o terror... ou eu lhe dava as coisas que tinha ou teríamos que tirar a roupa do corpo. E assim aconteceu com outras mulheres. Os homens tiravam o paletó, ou seja lá o que fosse, tudo para tapar a fenda e nos salvar da grande travessia. – Ernesta fez uma pausa tristonha meneando a cabeça. - Por sorte, logo alcançamos a costa do Rio de Janeiro e chegarmos vivos. Alcançamos o porto em 14 de abril de 1876.
        Beppe, sentado a seu lado, afagava os cabelos da esposa, impressionado, ambos com olhos fixos e marejados. Ele sabia das dores das viagens, pois nunca se esqueceu da morte de sua irmã Orsola no navio, em maio de 1876, quando ele e sua família, saindo do Trento (então pertencente à Áustria) também emigraram para o sul do Brasil. Sua mãe chorara dias e dias, inconsolável.
     - Fomos heróis - disse - nós todos, corajosos homens e mulheres, e intrépidos rapazes como eu era. Não tínhamos jamais imaginado aquilo tudo em tempo algum, nalgum pesadelo que fosse. Nunca teríamos nos atirado na grande aventura se soubéssemos da negritude que rondava os navios, dos incidentes assombrosos que teríamos pelo oceano. Levas de imigrantes à mercê das intempéries da vida.
     Beppe lapidou sua sensibilidade em meio às florestas selvagens e, sobretudo, na companhia dessa grande mulher. Maravilhosa esposa, que deixou um legado de amor e beleza e um bom gosto no vestir e no comportamento. Há que se ter estofo para alcançar a elegância no ser, uma compreensão e aceitação das vicissitudes da vida que poucos conseguem ter.
        Olharam o caudaloso rio que brilhava espumoso nas quedas ali à frente. Umas andorinhas e sabiás piavam e chilreavam nos galhos, pica-paus bicavam pelo quintal, o conjunto de pássaros velozes e coloridos lhes faziam uma pomposa companhia.
        - Fizemos a nossa vida! – Exclamou Ernesta.
        - Sim, lutamos e conseguimos! – Beppe assentiu.
       Os netinhos voltaram da margem do rio e correram para o colo do avô. – Pega nonna... e nonní! – disse Aninha, mostrando a mão dela e do irmão cheia de framboesas. Todos saborearam aquelas frutinhas deliciosas, bem felizes.

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P.S.: No final de 1936, Ernesta Demarchi – minha bisavó - veio a falecer e Beppe Caresia – meu grande bisavô - morreu em 1941.

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                                                                 Imagem: arquivo pessoal Família Pavesi.

 
Izabella Pavesi
Enviado por Izabella Pavesi em 28/01/2018
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