Izabella Pavesi

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Textos


TEMPO SOBERANO

O tempo me pertence neste momento e eu me banho numa cachoeira imaginária. Ou melhor, na doce cachoeira da minha infância. E vertigens me cobrem os pelos só de relembrar a incontida euforia daqueles dias. E eu, tão ingênua e faceira, me espelhava nas águas limpíssimas de Porto Franco. Eu e as primas da minha idade, nos dávamos as mãos e pulávamos encantadas com cada marolinha que a água fazia ao descer o rio Itajaí-Mirim, aquela água tão transparente que acariciava nossos corpinhos miúdos.

Volto ao momento presente... e a imagem da cachoeira se vai... fugaz... fugaz, como a ventania que passa. O tempo me trás outra visão: no momento presente, na televisão desfilam as imagens de uma filmagem de Overland, num canto longínquo da Terra, carros off-road sulcam as areias do deserto africano.

Num lapso de tempo tudo passa!... E tudo tem seu tempo. O tempo é soberano.

E eu aprecio os dias passarem... Observo os belos pássaros com penas brilhantes voando pelos céus. Eles encantam... cortam o ar e se firmam entre os fios de luz e a cerca de casa. São lindos de cores marrons e laranja e piam alegremente. E vem e vão numa velocidade inquietante. Depois de se apoiarem em fios de eletricidade, se acasalam; namoram ali rapidinho suspensos no ar. Não é incrível!... bem divertido!

Nos dias chuvosos cujos afazeres ficam restritos, a vida segue mais lenta, pois deixamos de lado a pressa em fazer “tudo ao mesmo tempo agora”. O cair das gotinhas exibindo um painel de cores líquidas é enternecedor.

O tempo vem a nos ensinar inúmeros códigos. Primeiro: a semear (em duplo sentido) e a esperar, pela hora certa do amadurecimento das sementes e pela hora da colheita. É o tempo que rege os nascimentos, é o tempo que exige um tanto de “luas” para a colheita das frutas e hortaliças, é o tempo de maceração que faz das uvas o vinho bom.

Ah! o tempo, este soberano, imperador sábio, sóbrio, onipresente! Só ao final da vida ele vai se apresentando mais nitidamente palpável. Ou seja, quando passamos a nos indagar: “o que eu fiz do meu tempo na Terra?” Para tanto, a História é imprescindível, nossas memórias são o elo que nos liga às futuras gerações.

Percorro as linhas da minha memória afetiva... nela, meus dedos encostam nas espumas das ondas do mar, que logo se dissolvem... e vem outra, e outras mais. E assim, meus pés firmes na areia são ostensivamente salpicados por elas... água e areia, areia e espuma... e brilham ao sol radiante. E eis que horas se passam e lá se foi a tarde toda. E as memórias continuam, enquanto corro pela trilha de volta para casa. Parei. Olhei para trás e lá estavam as ondas do mar, harmoniosamente fazendo espuma e se desfazendo numa dança hipnotizante.

Minha mente traz a emoção de dias vividos alegres, ouvindo risos das gentes na praia e sentindo o pinicar das conchas nos pés entre tufos d’água e o regressar das ondas para dentro de si mesmas. Nada é tão pueril quanto areia, água e a vida que passa. O que se dissolve afinal? O tempo? A vida? As experiências? Ou, talvez, isso tudo junto?!

E como ficam as expectativas?!... Ah, sim, quantas horas e dias perdemos na esperança de alcançar os sonhos?! Sonhos de amor, de enlaces, de se realizar na vida profissional, numa viagem ou num empreendimento. Enquanto o desejo de alcançar algo nos mantiver ativos, os anos seguem nos moldando às circunstâncias.

Nós cronometramos o tempo no relógio dos dias e nossos dias se pulverizam em expectativas, esperançosos de colhermos o melhor, o suprassumo da vida. Olhamos as horas infinitas vezes. E no passar da vida, de repente, nos encontramos de cabelos brancos. É neste degrau das vivências que nos perguntamos: como fazer o tempo render?! Como usufruí-lo da melhor maneira?! Se nos detivermos nas fontes do aprendizado, com os filtros adequados para o sucesso, ou seja, focarmos no que de fato tem valor, nossa vida e nosso tempo não terão sido desperdiçados.

E temos relógios por todos os lados há décadas, nos lembrando que a vida é finita. Praças tem relógios do sol; estações de trem - lugares estratégicos, também os exibem para nos lembrar que o trem parte. A beleza da tecnologia está presente em milhares de modelos de relógios, tem para todos os gostos em todo o mundo.

Sabiamente, códigos chegam a nós, seres humanos, e nos fazem criar objetos ou marcos onde são cravados números ou algo parecido. Por exemplo: as pirâmides, os hieroglifos, o alfabeto grego, o calendário gregoriano, o calendário lunar e assim por diante. Sempre mais, novos códigos vão surgindo nas mentes brilhantes no sentido de encontrar novas formas de medir o Tempo e de aprisioná-lo, tanto que, saímos a fazer fotos e vídeos e filmes para perpetuar nossas memórias.

E o que dizer de lugares “que parecem que o tempo ali parou?!”. Como isso?!... se o tempo passa com tanta fluidez, impalpável e fugidio?!... - Eternizá-lo!...sim, nossa missão, na medida do possível, através da escrita.

Como dizia Santo Agostinho nos seus estudos: “o tempo é um enigma profundo que só pode ser compreendido pela forma como o experienciamos interiormente, na nossa consciência e memória, sempre em contraste com a eternidade imutável de Deus”.

P.S. esta crônica recebeu “Menzione D’Onore” da A.C.I.M.A - Associazione Intl. Mandala de Milão-It. e troféu Literário em 16.05.2026, na Itália.

Izabella Pavesi

imagem: arquivo pessoal

Izabella Pavesi
Enviado por Izabella Pavesi em 25/05/2026
Alterado em 29/05/2026


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